Lays Ramires - 23 de Agosto


23 de Agosto de 2021


Nosso encontro começou às 13 horas. Os momentos iniciais são direcionados à soltura, para então dar sequência ao trabalho de fortalecimento e condicionamento. O foco de todos os movimentos são sempre a busca da consciência e da expansão. Uma fala recorrente do diretor e que neste encontro foi ainda mais pontuada é a de que todos os músculos precisam estar ativados. Talvez isso devesse parecer óbvio, mas não é. No cotidiano, estamos habituados a fazer o máximo de ações usando o mínimo de esforço possível. Assim, somos acostumados a poupar energia. E não trata-se de um esforço excessivo, trata-se de uma ativação completa do corpo, buscando sentir que cada centímetro dele esbanja vida e pulsação. Não há nenhuma parte do corpo em relaxamento. O “todo” encontra-se em estado de atenção. Assim, seguimos usando forças opostas, trabalhando mais intensamente alguns pontos sem deixar que enquanto isso acontece, outros pontos estejam relaxados. Por exemplo, enquanto subimos os braços para o alto da cabeça, tentando alcançar o teto, o quadril está encaixado, as omoplatas ativadas e os membros inferiores trabalham empurrando o chão. Há de se fazer isso sem tensionar pontos indevidos do corpo, como o pescoço.


Em cada movimento proposto é possível observar uma série de questões, pois uma vez que se realiza esse chamado à “Consciência”, nada mais pode ser passado de forma desapercebida. Ao trabalharmos a torção do tronco, preocupados em manter o quadril estático, damos atenção novamente a pequenos detalhes, que no cotidiano comum não nos chamaria atenção. Percebemos também que muitas vezes, o movimento será mínimo. E se não estivéssemos focados nisso, simplesmente faríamos um movimento mais amplo, aparentemente com maior alcance, porém não trabalhando a oposição, provavelmente deslocando o quadril e não provocando o alongamento e a flexibilidade. Aí que está uma grande importância do trabalho: o máximo esforço para o mínimo movimento. A busca é por práticas que tornem esse corpo cada vez mais latente, expandido e atento. Durante toda a prática sinto como se estivesse destravando meu interno, encontrando espaços, estalando, como se sempre estivesse por acordar micropartículas que estavam antes inertes ou enrijecidas. Vou me sentindo crescer a cada movimento concretizado, ou não concretizado, aliás. Muitas vezes não consigo a realização plena de alguns movimentos, devido a minha estrutura corporal. Porém, são caminhos nos quais me disponho a caminhar, onde a dificuldade não pode nunca ser um freio, mas sim um motor.


Após o treinamento físico, passamos a trabalhar as canções do espetáculo já numa ambientação cênica. A busca pelo tônus, a manutenção melódica e a objetividade das notas também nos levaram a um outro questionamento: Como carregar para todo o ensaio aquele mesmo corpo plenamente ativado de minutos atrás? Por que será que nós, atores, muitas vezes nos acomodamos durante os ensaios, para doar energia e entrega apenas no momento da apresentação?


A oposição acontece o tempo todo no corpo do ator, diz o diretor, e segue: a mesma transpiração que ocorre durante o treinamento, deve existir durante todo o processo que se segue.

Disso entende-se uma série de questões que precisam de atenção. Quando o diretor diz isso, não está falando apenas no sentido literal, dos momentos da sala de trabalho, mas recobrando todo o processo de busca que deve ocorrer fora dos encontros. De tudo aquilo que precisa ser adquirido, absorvido, praticado e pesquisado em casa para ganhar vida na sala de ensaio.


Nos acostumamos (mal) com a ideia de que existe um diretor que nos guiará por toda a encenação. É claro que ele fará isso. Mas isso não basta se buscamos nos tornarmos artistas cada vez mais potentes.


A autonomia é uma grande busca no trabalho do ator, não porque seja desnecessária a figura de um diretor, pelo contrário, aliás, eu sou totalmente adepta a ideia de que é fundamental a presença de uma diretor, seja qual for o formato adotado de trabalho. Porém a autonomia nos instiga a sair de um lugar perigosamente confortável. Ela nos obriga a agir mais. Ser e viver mais a plenitude do que nos propusemos a fazer.


A segurança de confiarmos no diretor que temos pode nos deixar acomodados e este é o maior equívoco que podemos cometer no teatro.